Opinião

“RAMON SE MUDOU DA TERRA”

Domingos Matos, 15/01/2017 | 16:29

Por Adroaldo Almeida

No meio da década de 1980 eu cheguei a Itabuna para estudar e trabalhar. Era bancário e sindicalista, mas queria ser escritor. Por revés da sorte, acabei advogado e político, uma lástima. Naquele tempo, transitava na senda da arte entre Buerarema e Ilhéus uma trupe felliniana: Jackson, Betão, Alba, Eva, Gideon, Gal, Delmo, Zé Henrique e, naquela miríade estrelar, ele, claro, RAMON VANE, o mais cênico de todos. A figura de um pintor holandês do século XVII, a recitação de um menestrel medieval e a presença carismática de um franciscano. Um astro rasgando o céu da Mata Atlântica. Nosso Rimbaud trovando no alto da proa de um barco bêbado, singrando os mares e domando as ondas naquela temporada no inferno, atirando poesias contra a estação da ditadura ainda presente.

Eu o encontrava quase todas as noites no curso noturno de Direito da FESPI. Fomos colegas e contemporâneos, nos códigos e na decodificação da Justiça, mas “as leis não bastam, os lírios não nascem da lei”, como aprendemos com Drummond e escrevemos o nome tumulto na pedra.  Era tímido na faculdade, nunca o encontrei no DCE, mas enxergava-o de soslaio num canto da biblioteca do Departamento de Letras, onde ambos acorríamos à procura da consolação na palavra. Porém, como ele sabe agora, jamais encontramos um bálsamo, conforto ou doçura na provisoriedade dessa condenação da existência. Talvez nessa travessia, na eternidade de serafins e cítaras, ele possa declamar todo seu lirismo sem a azáfama e a urgência dos dias terrenos.

Neste domingo acordei com uma mensagem de Gideon Rosa: “Ramon se mudou da terra hoje de madrugada”. Assustado, levantei mudo e pasmo, e essas reminiscências me afloraram durante toda a manhã. Daqui de Itororó, lamentavelmente, não pude ir ao sepultamento, então, mando rápidas e atropeladas letras na ambição de contribuir para desentortar as veredas no seu caminho ao paraíso.

Ramon Vane era um artista, eu me lembro!

Adroaldo Almeida é escritor, advogado e político

Setran - uma secretaria ou uma sereia?

Domingos Matos, 09/01/2017 | 23:02

Por Domingos Matos

O magnetismo que a Secretaria de Trânsito exerce sobre políticos, especialmente os com pretensões eleitorais, ainda está para ser explicado. Deve ser algo tão irresistível quanto o canto de uma sereia. Se não, vejamos.

O trânsito de Itabuna foi municipalizado sob a gestão de Geraldo Simões, entre 2001 e 2004. Ali, teve dois secretários, Ilton Cândido e Iruman Contreiras. Foi das poucas vezes que teve secretários que não tentaram se aventurar em candidaturas a cargos eletivos -- a outra exceção foi no governo Azevedo, como veremos adiante.

Voltemos à nossa linha do tempo.

No quarto governo de Fernando Gomes, entre 2005 e 2008, o secretário foi o vice-prefeito Capitão Azevedo. Candidato a prefeito na eleição de 2008, no qual saiu vencedor.

Governo Azevedo (2009-2012), o secretário Wesley Melo não tentou uma candidatura, assim como os dois na gestão Geraldo Simões #2.

Mas aí chegamos à administração de Claudevane Leite, de triste memória, que começou no longínquo ano de 2013 e se encerrou em dezembro último. Ia tudo bem na Settran, comandada pelo delegado Clodovil Soares, até que o bichinho da eleição picou o então diretor da FICC, Roberto José. Vane queria fazer frente ao PCdoB e permitiu que seu fiel escudeiro acumulasse duas funções tão díspares no governo: diretor de uma fundação que fometava(?) a cultura e a gestão do Trânsito e do Transporte. Em comum nesses setores, talvez, só a queda pelo ramo da serralheria, fosse para fabricar pontos de ônibus ou para distribuir parques infantis pelas praças da cidade. Mas isso é outro assunto.

Roberto José, todos sabem, levou a cabo o racha no governo Vane, que tinha um acordo -- declarado pelo PCdoB e nunca desmentido pelo prefeito -- de que em 2016 seria dele, PCdoB, a vez de disputar a prefeitura. Para bancar uma guerra dessas só mesmo estando onde? Na Settran, é claro! O resultado, todos sabemos, foi uma candidatura a vice-prefeito na chapa de Azevedo, totalmente a contragosto, na qual alcançou o terceiro lugar.

Além de Clodovil Soares e RJ, a Settran, sob Vane, ainda teve o ex-vereador Abraão Ribeiro e o pastor Valério Hafner -- que não se declararam candidatos em 2018 mas também não disseram que rejeitam a ideia.

Chegamos, por fim, ao atual governo. Nove dias de gestão e pela Settran já se passaram - entre pretensos, aclamados e nomeados - três secretários, caminhando para o quarto. O primeiro foi o conselheiro do Transporte Público Municipal, Zenisson Soares, segundo o blog Ipolítica. Isso correu no dia 2. Sabe como é, né? Cadeira vazia... No mesmo dia, a "solução": o servidor Benilson Messias foi aclamado secretário, mas não chegou a ser oficializado.

Para "encerrar" a confusão, o terceiro nome: Sérgio Gomes. Filho do prefeito, já chegou avisando que só ficaria até o próximo ano, porque planeja sair candidato a deputado estadual. Ou seja, a pasta já estava fadada a ter mais um titular, como de fato ocorrerá agora, após a exoneração de Sérgio Gomes, por força das pressões da imprensa e da opinião pública, via redes sociais, além de entidades como a OAB -- por falar nisso, cadê o Ministério Público, tão cioso que era na gestão de Azevedo e em alguns momento da era Vane?

Uma coisa esse blog já crava com certeza: o futuro ocupante -- de direito -- daquela cadeira não será candidato a nada antes de 2020. Pelo simples fato de que o secretário de fato, em que pese tenha sido exonerado do cargo, ainda ouve o canto da sereia e não desistirá da candidatura a deputado estadual.

Editor

A nova Ceplac esperada, após 30 anos de crise!

Domingos Matos, 03/01/2017 | 00:04

Por Juvenal Maynart

Quando a Ceplac foi criada, a revolução verde se baseava em agrotóxicos, as bibliotecas usavam somente papel, a genômica ainda não existia, computadores só eram vistos no seriado O túnel do tempo, e as redes eram apenas instrumentos de pescadores ou de balanço para um bom descanso. A Bahia tinha uma única universidade e apenas dois doutores em ciências agrárias.

O mundo mudou; a Ceplac, idem. Se o mundo e a nossa instituição mudaram, o que estaria errado para que se justifique uma nova Ceplac? A resposta está no tempo do verbo. Sim, o mundo não mudou – o mundo muda a cada instante, todos os dias. A Ceplac, não. Ela mudou, mas parou de mudar. E isso é um atraso imensurável, na era da Tecnologia da Informação e Comunicação,  mesmo que a última mudança tenha ocorrido há dez dias ou há dez anos.

A Ceplac que estamos buscando, em parcerias com o mundo da ciência, inovações e academia hodiernas, terá na Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) e na e-agricultura as ferramentas da instantaneidade. Estão aí a GigaSul e a Rede Nacional de Educação e Pesquisa – RNP, do MCTI, para proverem o fazer científico em altíssima velocidade.

Sim, queremos uma ciência viabilizada por meio de redes digitais, a transparência e soluções instantâneas dos editais pautando suas demandas, e extensão por aplicativos. Queremos respostas imediatas, visto que o produtor não tem porquê esperar uma visita “in loco”. O custo tempo nas presenças físicas serão exceções.

A Ceplac tem inserção produtiva nos dois principais biomas de mata e floresta do país – a Mata Atlântica e a Floresta Amazônica. Tanto numa região como noutra, o espaço produtivo será o definidor das necessidades. A roça de cacau cederá lugar a um espaço produtivo, complexo, que tanto produzirá amêndoa quanto chocolate, madeira certificada em casos específicos, ou turismo rural. Com tecnologia e informação em tempo real, surgirá um novo produtor, consciente das potencialidades de seu espaço. Um produtor que perseguirá a sustentabilidade de seu negócio e terá na Ceplac o agente fomentador e o suporte tecnológico de que necessita para gerar riquezas.

O Brasil possui uma vasta legislação que busca zero trabalho escravo e uma legislação trabalhista (CLT) que garante ao trabalhador o respeito aos seus direitos. Tem uma indústria consolidada. Uma rede de educação ampliada e inclusiva – hoje, um índio concluindo o curso de Medicina não choca, estimula.

Não podemos pensar em criar e incentivar apenas produtores de commodity cacau. Podemos, devemos e seremos dominadores de toda cadeia produtiva. Em rede, com informação, inovação e tecnologia. Teremos chocolateiros e muito mais. O PCTSul (Parque Científico e Tecnológico do Sul-baiano) será estímulo ao empreendedorismo local. Afinal, segundo Schumpeter, “o capitalismo – para vingar – só precisa de crédito e empreendedorismo”.

Para encerrar, fragmento de Tabacaria, do mestre Fernando Pessoa:

Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.

Juvenal Maynart é diretor-geral da Ceplac

Equilíbrio necessário

Domingos Matos, 30/12/2016 | 12:40

Por Domingos Matos

Nesse domingo (1), serão concluídos os atos da Eleição 2016, pelo menos no que diz respeito à posse dos declarados eleitos e diplomados para exercer seus mandatos. Antes da posse do prefeito declarado eleito Fernando Gomes, tomarão posse do mandato os vereadores eleitos e reeleitos, para, logo em seguida, elegerem a Mesa Diretora da Câmara. Aí é onde reside a chave do que será o próximo período administrativo em nosso município.

Supondo que o prefeito Fernando Gomes não sofra nenhum revés por conta de suas pendências judiciais, o que levaria, em determinados casos, a uma queda da chapa - prefeito e vice -, caberá ao comando do Legislativo determinar o ritmo do que entra na pauta das discussões e votações no Parlamento. Isso é muito. Basta lembrar o que aconteceu com a presidenta Dilma em 2016. Coube a Eduardo Cunha a decisão de acatar e determinar a tramitação do pedido de impeachment da mandatária e o resultado todos conhecemos.

Pois bem. O ideal na democracia seria que o Executivo e o Legislativo estivessem de fato separados, mas trabalhando harmonicamente. Mas a democracia também é a ditadura do voto. Assim, pedir que vereadores ávidos por "poder" pensem no quanto teriam de poder se fossem - como sistema, não como individuos - independentes do Executivo seria pedir demais.

O que queremos dizer é que os vereadores tem a chance de se fazerem poderosos no domingo, na medida em que escolham sua presidência de maneira autônoma. Que entendam a primeira lição do Parlamento: ser da base aliada do Executivo não significa dar a ele - Executivo - as rédeas do Poder que representam.

Nada os impede de serem aliados do prefeito, mas não precisam entregar a própria dignidade no primeiro ato. Está provado na história que algum equilíbrio se faz necessário.

Que a força e a sabedoria estejam com vocês!

Editor

O que é a era da pós-verdade

Domingos Matos, 23/11/2016 | 09:21

Por Jean Wyllys

A notícia de que o Facebook – até que enfim – decidiu tomar medidas para limitar a circulação de notícias falsas na rede vem pouco depois de a Universidade de Oxford ter escolhido a “pós-verdade” como a palavra do ano, e das polêmicas suscitadas nos Estados Unidos como consequência da série de boatos espalhados pelas redes sociais que contribuíram para o sucesso eleitoral de Donald Trump.

Ou seja, pela primeira vez, parece que academia, políticos sérios e empresas de tecnologia se mostram realmente preocupados com a contaminação da esfera e da opinião públicas por mentiras e calúnias divulgadas na internet e nas redes sociais por criminosos da política e da religião, com o objetivo de manipular a opinião pública.

Nada disso é novidade para as famílias dos mortos por linchamentos motivados por fofocas na internet. E nada disso é novidade, tampouco, para nosso mandato, que trava uma batalha de seis anos contra o próprio Facebook para por algum freio à avalanche de mentiras e calúnias em relação a mim que corre nas redes sociais.

“Jean Wyllys apresentou um projeto de lei para mudar trechos da Bíblia”, “Jean Wyllys disse que sairia do Brasil se o impeachment fosse aprovado”, “Jean Wyllys defendeu a pedofilia”, “Jean Wyllys disse que os negros não podem ser evangélicos”, “Jean Wyllys quer implantar o ensino da religião islâmica nas escolas”, “Jean Wyllys quer obrigar as crianças a mudar de sexo”.

Cada uma dessas e outras estupidezes, inventadas por criminosos que usam as redes sociais para difamar adversários políticos, “viralizou” por meio do Facebook, que nada fazia para impedir que isso acontecesse.

Antes da vitória de Trump, o resultado do Brexit no Reino Unido, a derrota do acordo de paz na Colômbia e as vitórias de Crivella, no Rio, de Dória, em São Paulo, e do candidato do PSDB, em Belém, já mostraram o poder da “pós-verdade” (da mentira aliada ao preconceito) na política contemporânea.

Embora cada um desses resultados eleitorais tenha vários e complexos motivos, é inegável que a boataria e a “viralização” de mentiras e calúnias nas redes sociais jogaram um papel fundamental na estratégia de campanha dos vencedores e influenciaram seriamente o voto popular.

E, ainda que algumas pessoas ditas “de esquerda” recorram a este expediente, a “pós-verdade” é uma arma sobretudo da extrema-direita e de fascistas, instrumentalizada pela direita tradicional e seus veículos de comunicação.

O triunfo da “pós-verdade” e a destruição que esta causou nas relações familiares e vicinais, jogando as pessoas numa arena de ódio, são também frutos da negligência e, em alguns casos, da cumplicidade do jornalismo e das instituições democráticas com esse expediente.

A Polícia Federal, no Brasil, mostra-se completamente incompetente e ineficaz em conter a rede de difamação quando esta vitima políticos e pessoas de esquerda e progressistas, mesmo em posse de indícios que podem lhe levar aos criminosos. Já o Ministério Público tem movido ações contra essas pessoas – sim, contra as vítimas – baseado em mentiras e calúnias que circulam na internet.

Vejamos alguns exemplos recentes. Em Feira de Santana (BA), a Câmara de Vereadores moveria uma moção de repúdio a mim baseada numa mentira ridícula que circula nas redes sociais (que eu apresentei um projeto para “mudar trechos da Bíblia”).

Uma promotora do MP pediu que eu fosse investigado por um boato de internet sobre “tráfico de influência” para que um filme recebesse fundos da Lei Rouanet (e a informação é tão falsa que não só não houve tráfico de influência como a verdade é que os produtores do filme, que não têm qualquer vínculo comigo, sequer solicitaram – e portanto também não receberam – dinheiro da Lei Rouanet.

Também podemos citar o caso da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, que sorriu quando um deputado estadual insultou violentamente a deputada federal Maria do Rosário (PT-RS) por conta de uma calúnia contra ela divulgada na internet (um suposto post no Facebook que ela nunca fez).

Outro exemplo aconteceu recentemente, quando uma enquete (ainda que infeliz) realizada pelo programa de Fátima Bernardes na Rede Globo deu lugar a um uso político vergonhoso e contaminado de mentiras: um deputado federal usou as redes sociais para relacionar a enquete à queda do helicóptero da PM na Cidade de Deus e usou essa falsa relação para atacar a apresentadora do programa.

Na Câmara Federal, a desfaçatez com que deputados e deputadas que perpetraram o golpe contra nossa democracia se revezam na tribuna para reproduzir mentiras e calúnias que circulam na internet é assustadora.

O caminho do próprio impeachment da presidenta Dilma foi pavimentado com a “pós-verdade” – e, nesse caso, com a ajuda dos jornais, revistas e telejornais. O MBL e o Revoltados Online – grupelhos proto-fascistas instrumentalizados por partidos de direita como PSDB, DEM, PMDB e Solidariedade – trabalham apenas com a “pós-verdade”.

Nos EUA, o próprio FBI deu subsídio para a rede de mentiras contra Hillary Clinton, para, no final da campanha, quando a “pós-verdade” já havia feito o estrago, negar as insinuações feitas.

Ou seja, as instituições democráticas que poderiam e deveriam deter essa arma letal nada fizeram porque, uma vez compostas de pessoas, estão elas mesmas repletas de preconceituosos, ignorantes, fanáticos e criminosos que se tornaram militantes da “pós-verdade”. A notícia de que o Facebook vai reagir a tudo isso é bem-vinda e traz alguma esperança a esses tempos sombrios.

Jean Wyllys é deputado federal

Via DCM; publicado originalmente na Carta Capital.

Entre a Embasa e a privatização

Domingos Matos, 24/10/2016 | 22:03

Erick Maia

Longe de qualquer interesse corporativo ou político, é preciso dizer que, infelizmente, devemos reconhecer que a nossa cidade está muito longe de outros municípios de médio e grande porte da Bahia em relação ao saneamento básico, notadamente abastecimento de água e esgotamento sanitário. Perdemos até mesmo para municípios menores da região, como Camacan, Canavieiras, Itaju do Colônia e Itacaré neste quesito.

Em termos relativos, pela importância regional, populacional e econômica, Itabuna é uma das piores da Bahia nesses indicadores. O advento do Plano Municipal de Saneamento Básico, pressiona-nos quanto a necessidade de saber de onde virão os investimentos em infraestrutura de saneamento básico e a crise hídrica expôs todas as nossas fragilidades.

Nesse sentido, o convênio de cooperação que está no legislativo, que pretende autorizar a transferência desses serviços públicos ao estado da Bahia, deve ser avaliado como uma grande oportunidade de buscarmos uma alternativa pública que pode conciliar e convergir os interesses de vários segmentos da sociedade.

É importante lembrar que a municipalização dos serviços públicos de abastecimento de água e esgotamento sanitário em 1989 e a criação da Emasa, visava essencialmente atender às expectativas de descentralização do poder de decisão, trazendo ao município o protagonismo na prestação desses serviços essenciais.

Nos 27 anos da Emasa, contudo, a falta de planejamento e gestão de longo prazo demonstrou a nossa incapacidade, até aqui, de administrarmos uma empresa municipal. E não apenas a população foi prejudicada nesse período, mas também os servidores da Emasa, com baixos salários e falta de perspectiva de crescimento na carreira.

Nesse momento, a proposta do governador Rui Costa de regularizar o abastecimento de água e fazer os investimentos necessários no tratamento de esgoto, além de assumir 150 funcionários e parte da dívida da Emasa e transferir 3% da arrecadação da tarifa de água ao município, deve ser considerada. Não que seja a melhor das propostas ou a Embasa não tenha as suas limitações e deficiências empresariais. Mas deve ser considerada.

Pessoalmente, defendo uma melhor negociação com o estado, com a incorporação de todos os 308 funcionários da Emasa pela empresa estadual e aumento da participação do município na arrecadação da tarifa de água.

Mas existe a opção de manter a Emasa? Claro que sim. Contudo, é necessário um esforço, quase impossível, de que a empresa seja blindada das ingerências políticas partidárias e reestruturada financeiramente. O que não seria da noite para o dia e dependeria de muita vontade política e, principalmente, pressão e controle social.

O certo é que não sabemos quem será o próximo prefeito. Caso Fernando Gomes assuma, ele já deixou claro num debate eleitoral sobre o tema, no hotel Tarik Fontes, que vai privatizar. Se não for assim, não só ele, mas muitos outros, certamente não abrirão mão de fazer toda sorte de ingerências e desvios na Emasa.

Como diria o filósofo Aristóteles: “primeiro as primeiras coisas”. Equacionar o problema de investimento em saneamento básico é sine qua non para que o município de Itabuna volte a crescer, gerar mais empregos e melhorar a qualidade de vida da sua população. Do contrário, continuaremos sofrendo as mesmas consequências das irrespondabilidades administrativas e políticas. Itabuna seguirá perdendo oportunidades.

Erick Maia é sindicalista e servidor público estadual.

Barramos a privatização da Emasa

Domingos Matos, 25/07/2016 | 11:15

Por Erick Maia

19 de julho vai ficar consagrado como o dia que enterramos qualquer possibilidade de privatização da água no município de Itabuna.

Com união dos trabalhadores e força movimentos sociais,  contrariamos interesses de gente poderosa.

A luta foi árdua. Dentre as estratégias que adotamos: jurídica e institucional, ocupamos a Câmara de Vereadores por 17 dias e não deixamos que o processo de privatização fosse votado e que ficou condicionado a aprovação do PMSB ( Plano Municipal de Saneamento Básico).

Após o retorno das audiências públicas pra discutir o PMSB, o nosso movimento, prevendo mais uma manobra para retomada da concessão dos serviços à iniciativa privada, de forma inteligente e precisa, deram mais uma demonstração de união e de capacidade de luta.

Nossa ação envolveu a articulação da participação do MPF na audiência pública, com a presença da Procuradora Federal,  Cristina Nascimento de Melo e do alinhamento acerca da necessidade de pressão por uma discussão mais aprofundada do PMSB.

A Procuradora entendeu que não houve uma discussão adequada com a sociedade que pudesse ser comprovada através de contribuições efetivas da população nas escolhas de proridades das ações, metas e objetivos do plano. 

Assim, conseguimos adiar as audiências públicas que seriam realizadas nos dias 20 e 21 de julho, e que essas fossem transferidas para os mês meses de outubro e novembro pós o período eleitoral, a além da inclusão de 5 nomes de representantes do Comitê pela Vida e em Defesa da Emasa na comissão Executora do Plano de Saneamento.

Tudo isso inviabilizou de forma definitiva a privatização da água pelo governo Vane.

Ontem (22) o governador sinalizou um acordo com o prefeito Vane no sentido de assumir a operação dos serviços de água e esgoto do município.

Vamos seguir lutando na defesa intransigente dos trabalhadores e trabalhadoras da Emasa, contra qualquer tipo de privatização dos nossos recursos   e pelos interesses de Itabuna.

Erick Maia é integrante do Comitê em defesa da Emasa

Clodoaldo Lobo (1956-2016)

Domingos Matos, 20/07/2016 | 01:28

Por Durval Pereira da França Filho

Faleceu no dia 18 de julho de 2016, em Salvador, o jornalista e crítico teatral  José Clodoaldo Multari Lobo. Nascido em Canavieiras, em 26 de abril de 1953, era filho de Aurivaldo Lobo (Ten. Lobo) e Joselita Multari Lobo (D. Lalá). Realizou seus estudos fundamentais com a professora Florinda Barbosa (Filuzinha) e o ginasial no Colégio Estadual Osmário Batista, em Canavieiras.

Em 1967 foi para Salvador, onde fez o segundo grau no Colégio Severino Vieira, e logo depois ingressou na Faculdade de Jornalismo da Universidade Federal da Bahia – UFBA, curso que concluiu em 1974, possivelmente.

Seu primeiro emprego foi na Fundação Cultural. Depois, no jornal A Tarde, oficialmente a partir de 1984, e onde permaneceu por um período de 18 anos, na qualidade de crítico cultural, tempo em que atuou também no Correio da Bahia. Em 1997, também foi homenageado através de publicação.

Tempos depois, Clodoaldo sonhou em escrever um livro a respeito de crítica de arte, principalmente sobre a memória do teatro baiano. Iniciou a pesquisa, mas ficou impossibilitado de dar continuidade em razão das dificuldades decorrentes de um transtorno bipolar que o levou a diversas crises e internamentos, e que foi se agravando ao longo do tempo.

Mas a ideia não morreu. O projeto foi levado adiante através dos seus amigos que deram continuidade ao pensamento de Clodoaldo, por meio de suas anotações a partir de 1988. Por seu relevante trabalho de crítica teatral, Clodoaldo foi mais uma vez homenageado em 2012, através do Prêmio Braskem de Teatro e, em 2013, seus textos, publicados no jornal A Tarde, foram recolhidos e organizados no livro Memória de uma Crítica Encantada editado pela Fundação Cultural do Estado da Bahia.

A organização do trabalho foi da jornalista Nadja  Miranda, doutora em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia, com incentivo da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, através do secretário Professor Doutor. Antônio Albino Canelas Rubim (belmontense) e da Fundação Cultural do Estado da Bahia (FUNCEB), representada por sua diretora Nehle Franke e outros consagrados jornalistas, como Kátia Regina M. Borges, também professora e escritora; Luiz Marfuz, doutor em Artes Cênicas, diretor teatral e professor, e Marcus Gusmão.

O trabalho reúne críticas teatrais, um conteúdo que expressa aspectos da história recente do Teatro da Bahia, com o objetivo de promover a difusão de produções sobre crítica, mais especificamente aquela relacionada às artes baianas. Trata-se de destacada contribuição em favor do debate e do incentivo às questões da área teatral. Assim, o livro cumpre um dos papéis propostos pela série Crítica das Artes: resgatar produções de profissionais notórios, tornando-os referência daquilo que a crítica é capaz de fazer.

O lançamento do livro Memória de uma Crítica Encantada ocorreu em 02 de abril de 2014. A dedicatória que ele fez no meu exemplar está ilegível, porque a doença já havia deixado suas marcas cruéis. Este é o José Clodoaldo Multari Lobo que conhecemos, ou simplesmente Clodoaldo Lobo, considerado o maior jornalista crítico de teatro da Bahia, orgulho canavieirense. Não casou, não gerou filhos biológicos, porque as suas criações foram gestadas no intelecto.

Finalmente, foi vencido pela doença que o incomodou por muitos anos, deixando um vazio no cenário intelectual baiano.

Historiador e membro da Academia de Letras e Artes de Canavieiras (ALAC)

Itabuna: uma cidade sem rumo

Domingos Matos, 19/07/2016 | 16:34

Maria José Gonçalves

Não sou comentarista política, mas sempre gostei de observar, ouvir, assimilar e aprender. Tenho acompanhado as notícias e vejo que os acontecimentos que abalam o meio político brasileiro, são de grande importância, no entanto não devemos esquecer que estamos em ano eleitoral municipal, e os problemas da nossa cidade são muitos e igualmente preocupantes e por isso, não é possível ignorar o que se passa em Itabuna, principalmente diante de uma administração arruinada, trapalhona, sem rumo.

Como moradora de Itabuna e que acompanha de perto essa gestão, posso dizer que parece que a mesma não se preocupa em acertar. Pelo contrário, os anos foram passando e não vi ninguém colocando ordem na casa. Vejo muitos profissionais capacitados, em condições de ajudar, no entanto, parecem terem se acomodado em seus cargos e deixaram as coisas rolarem e terminaram por tirarem proveito da situação. São muitos que preferem arrumar uma "boquinha” para o filho, a esposa, para os cabos eleitorais, os amigos, e acabam transformando a Prefeitura em uma ‘República Familiar’, do que lutar pela melhoria administrativa da cidade.

Para agravar a situação, temos uma gestão marcada por graves denúncias de desvios de conduta e roubos de aparelhos hospitalares, e no cargo um prefeito que parece não ter a mínima condição de gerenciar uma cidade com o porte de Itabuna. Para completar esse cenário caótico, a omissão é generalizada. Em verdade, poucos se manifestam, poucos se posicionam.  Podemos ver que a situação da cidade piora a cada dia, e não existe luz no fim do túnel. Parece uma estagnação contagiosa, porque ninguém demonstra ter interesse em resolver as coisas, em melhorar a situação. Quem anda por Itabuna fica impressionado com o estado em que se encontra a cidade, pessoas desiludidas com os políticos, comercio parado, sujeira pela cidade, os bairros abandonados, a saúde despreparada e as escolas sucateadas.

Não existe na cidade um evento que aglomere o povo, acabaram-se as festas de largo, parece que estamos jogados "às moscas". Muitas promessas foram feitas na época da campanha, no entanto nada foi cumprido, até o momento nada concreto aconteceu, e o povo está decepcionado, desacreditando que alguém possa reverter esse quadro, o que põe em xeque as novas eleições. Os candidatos que pleiteiam o cargo de prefeito nas eleições de 2016 precisam estar imbuídos de muita persistência e coragem, para enfrentar uma massa que já não acredita em promessas eleitorais.

Psicóloga

O jornalismo morreu. Viva o jornalismo!

Domingos Matos, 18/07/2016 | 00:32
Editado em 18/07/2016 | 08:27

Por Domingos Matos

"Na guerra, a verdade é a primeira vítima". A frase é atribuída ao dramaturgo grego Ésquilo (525 a.C. - 456 a.C.). Pois bem, há uma guerra em curso, e a verdade, se não é a vítima primeira, é uma presa frágil, e certamente será morta em algum momento.

Trata-se da guerra entre as redes sociais e o jornalismo - e o jornalismo está perdendo feio.

O jornalismo, como o conhecemos, está morrendo. A última linha de resistência, a blogosfera, também já não mostra forças para uma batalha que deveria ser suficientemente longa para ver confirmada uma suposição salvadora de que tudo não passa de um modismo. 

Há quem diga que a blogosfera deu o primeiro tiro no jornalismo. Eis que agora estaria provando do próprio veneno, ao ser alvejada pelas redes sociais.

Mas há um problema com essa forma de mediação da realidade: a falta de compromisso com a verdade dos fatos. A verdade não é mais o objetivo, no sentido de propósito, finalidade - mas, sim, no sentido de alvo. Nesse momento, vale mais o potencial de propagação do que a essência verdadeira do que se publica.

Um meme vale por mil notícias.

Itabuna vive um momento dramático em sua história, com a credibilidade de instituições e empresas públicas em xeque. Denúncias de crimes e prisões de polítcos. Prato cheio pra jornais e jornalistas. Mas, o que se vê é uma letargia, um desânimo, que atinge as empresas de comunicação e seus profissionais. Ninguém investiga.

E olhe que temos dois cursos de Comunicação em funcionamento (Uesc e Unime) - e um terceiro sendo reimplatado na FTC. Mais jornalistas despejados num mercado que os próprios cursos mostram que já não existe. A pergunta é óbvia: para quê?

Para quê, se basta um aplicativo em um celular e um operador com muitos seguidores a manipular um texto, uma imagem ou vídeo, para conseguir instantaneamente o efeito que nem o jornal mais lido conseguiria em um mês? Por outro lado, a informação - às vezes distorcida, devido ao momento político, às vezes fiel - corre todos os smartphones. Um verdadeiro zap-zap.

Mas, nem tudo é derrota. A boa notícia - essa mania de dar notícias... - é que, ao morrer, o jornalismo (analógico) está disponibilizando seus talentos para a blogosfera - última trincheira antes do caos - para salvar a si próprio em outras plataformas. Caberá a esses profissionais fazer o que deles se espera, depois de se adaptarem à nova linguagem. Uma flor colhida no caos.

Outra forma de adaptação é o uso dessas plataformas de interação social para divulgar ao máximo os conteúdos jornalísticos. Jornais, blogs, TVs e rádios que se prezem devem possuir perfis nas redes sociais. Lei da sobrevivência. Darwin na veia.

Sim, é uma questão de adaptação dos operadores, basicamente. Porque jornalismo sempre será jornalismo em qualquer meio.

Mas é preciso que sobreviva.

Jornalista, editor de O Trombone

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