BAHIAGAS - 25 ANOS

DE RODAPÉS E DE ACHADOS

Domingos Matos, 31/10/2010 | 11:16
Editado em 31/10/2010 | 12:03

Adylson MachadoQuando o tema se esgota em si mesmo, um rodapé pode definir tudo e ir um pouco além.  

Adylson Machado

                                                                              

Inacreditável I

Circula na internet (veja aqui) a notícia de uma agressão cometida contra uma comunidade no município de Ilhéus. O assentamento D. Hélder Câmara teria sido (preferimos o condicional, ainda que confiemos na fonte) invadido por um pelotão da Polícia Militar da Bahia. O fato ocorreu por volta das 14:00 horas do último dia 23, sábado, e as denúncias envolvem tortura, abuso de autoridade, violência contra a mulher e intolerância religiosa.

bernadete vítimaCom as cautelas que a divulgação exige – até porque não se pode conceber que fatos como estes convivam com o Estado de Direito – cumpre chamar a atenção das autoridades que comandam para apurar o que seus subordinados estejam promovendo ao arrepio, cremos, de orientações superiores.

Inacreditável II

Se a notícia acima espanta e increduliza, mais estranho o fato de não termos encontrado a mínima referência na imprensa regional, pródiga em mostrar retratos de “ladrões de galinha” recém detidos e de noticiar com estardalhaço a violência, publicando os confrontos e os trágicos resultados entre policiais e “nóias”.

Ovo de serpente

Desenvolve-se – com apoio na apatia social, gerada da omissão da sociedade organizada, mais preocupada com discursos em jantares e rapapés que assegurem espaço no colunismo social – a construção de que a maioria de jovens, vítima desta chaga do mundo contemporâneo, a droga, em especial o crack, passa a constituir um novo estereótipo social: “o nóia”. E com isso, a morte dos que se encontram sob a tutela do vício torna-se “coisa natural”, visto que é mais um “nóia” que se vai.

Embutido está um processo segregacionista a justificar, inclusive, grupos de extermínio, que se tornam, à luz dos que visam a comodidade pelo individualismo, justiceiros sociais aplaudidos e incensados no altar da omissão.

Hora de assumir

Deveras salutar a discussão que brota na sociedade itabunense em torno do Hospital de Base. Uma coisa está confessada: a dificuldade que norteia a administração municipal em geri-lo, sob a alegação de falta de recursos, estes compreendidos como aqueles do próprio município.

A tônica tem sido de que haveria má gestão no HBLEM, o que não significa reconhecer – no presente instante – que haja desvios financeiros, como flagrantemente denunciado em anos recentes, não tão recuados, quando a saúde ainda sob pleno controle do município.

O bom senso recomenda – considerando a circunstância de que está sob atenção um bem que diz respeito à coletividade – que, sendo uma questão, a priori, de disponibilização de recursos, e considerando o município ainda insuficientes os repasses estaduais, que passe o pepino para o Governo de Jaques Wagner e seu secretário Jorge Solla.

Encarar a realidade

O que precisa, urgentemente, é despolitizar a discussão, desprovê-la de paixões e vontades individuais. Não será nenhum demérito para o Prefeito José Nilton Azevedo transferir a gestão e custeio do HBLEM para o governo estadual, tampouco grandeza do Governo Wagner em assumi-la. Justamente porque o que se encontra em jogo é o atendimento da coletividade.

Se o HBLEM, nos idos de 2004 se preparava para ser o endereço do primeiro centro de cirurgia cardíaca do interior da Bahia, processo bruscamente interrompido a partir da administração seguinte (como também o processo de implantação da extensão da Faculdade Federal em terras grapiúnas), temos que, sensíveis ao interesse coletivo, tudo são águas passadas, leite derramado.

Cumpre-nos pensar no futuro. Que reside em dispormos de um HBLEM atendendo nos limites de sua possibilidade e não para tornar-se imenso elefante ferido a caminho da morte, alimentando-se no caminhar com vidas e saúde humanas.

Discussão I

Ficamos particularmente feliz com o tema que norteou o Fórum em Debate (TVItabuna) no correr da semana, coordenado por Barbosa Filho (o Barbosinha), centralizado na busca de soluções para a realidade ambiental imediata em Itabuna: Rio Cachoeira, tratamento de esgoto, coleta de lixo etc.

Sobremodo, a experiência apresentada pelo Professor Antenógenes como solução para as baronesas, que têm encontrado singular aproveitamento através de seu projeto instalado em Ferradas.

Assim como reencontrar a Professora Maria Luzia, que conhecemos nos meados dos anos 90 integrada ao Projeto de Revitalização da Bacia do Rio Cachoeira.

Ouvir Kátia Lyra, competente e compromissada, lembrando do desperdício de água e o custo que isso representa e defendendo com o ardor de sempre o ambiente urbano.

Discussão II

Temos encetado no único espaço de que dispomos no dia a dia, a sala de aula no DCIJUR-UESC, onde ministramos Direito Municipal, a imperativa necessidade de um efetivo processo de educação, que não vemos dentro do comprometimento necessário por parte das escolas, inclusive as decantadas particulares, que diga respeito à consciência da perdulariedade com que tratamos o tema água, só lembrado no contexto do meio ambiente em “semanas” pontuais a cada ano.

No particular do Rio Cachoeira, de que sua revitalização não diria respeito tão somente ao tratamento dos esgotos nele lançados no perímetro urbano de Itabuna, uma vez que saturado em todos os seus formadores e afluentes. E esquecemos do descaso com que são tratadas as suas nascentes, o que tem feito reduzir, a cada ano, a sua vazão.

Temos concluído que o problema do Cachoeira não está, portanto, apenas no “problema” esgoto, mas na dimensão de sua lâmina d’ água. Ou seja, se protegermos e recuperarmos as nascentes de seus formadores e afluentes – um custo menor e de resultado mais imediato com resposta a longo prazo – teríamos, sem desprezar uma política de tratamento de esgotos, a recuperação de sua lâmina d’água, o que em muito contribuirá para revivê-lo.

Considerável percentual

Dentre os deputados estaduais eleitos tendo por base a Região um destaque para Rosemberg Pinto. Não pelo fato da expressiva votação, mas pela circunstância de ser, na história política do município de Itororó (onde nasceu), o sexto deputado eleito no curso destes 52 anos de emancipação: Eujácio Simões (62, 66, 70, 74, 78 e 82), Henrique Brito Filho (66 e 70), Naomar Alcântara (78), Eujácio Simões Filho (86 e 90), Sérgio Brito (2002) e, agora, Rosemberg Pinto.

De destacar que, dentre eles, Henrique Brito (74 e 78), Eujácio Filho (94, 98 e 2002) e Sérgio Brito (86, 90, 94, 2006) já chegaram à Câmara dos Deputados. E se não fosse a tragédia de 1º de outubro de 1982, na Serra da Muquiba – onde morreram Naomar Alcântara e Henrique Brito, ao lado de Clériston Andrade e outros – Itororó já teria eleito Governador e Senador.

Estariam eles errados? I

danielaNeste 31, último turno das eleições presidenciais, encontro no belo blog de Daniela Galdino (http://operariadasruinas.blogspot.com/) o que consideramos emblemático na campanha, no que diz respeito aos efetivos e concretos avanços nas propostas para a educação do Brasil, ainda que distante a perfeição, no sempre imediato olhar de todos nós.

São 36 os reitores que subscrevem o “Manifesto de Reitores das Universidades Federais à Nação Brasileira”. Da UNIFESP de São Paulo a UFVJM, do Vale do Jequitinhonha, da UFPE de Pernambuco a UFRB, do Recôncavo baiano, da UNB de Brasília a UNIPAMPA, do Rio Grande Sul, da gaúcha UFRGS a UNIVASF (do Vale do São Francisco), passando pela URFJ e UNIRIO (Rio de Janeiro), UFT (Tocantins) etc.

Uma mescla de Universidades tradicionais ao lado daquelas recém-criadas e instaladas como as baianas UNIVASF e UFRB.

Estariam eles errados? II

A união que alimenta o manifesto é uma afirmação de que encontramos rumo. Destacando a recuperação das Federais e a inserção de 700.000 jovens no ensino superior, a instalação da Universidade Aberta do Brasil e a construção de 100 campi no território nacional, os reitores ressaltam que “Este período do Governo Lula ficará registrado na história como aquele em que mais se investiu em educação pública”, inclusive “a criação e ampliação, sem precedentes históricos, de Escolas Técnicas e Institutos Federais”.

Talvez seja isso o que incomoda a “elite branca” (loas para Cláudio Lembo): tudo isso no governo de um nordestino retirante, operário, que não fala inglês e que ainda deseja eleger uma mulher a primeira presidente do Brasil numa sociedade onde ela (a mulher) sempre esteve na cozinha ou atendendo reclamos de cama.

Não é só ver; é preciso enxergar.

Curral

Não deixa de ser hilário ACM Neto “denunciar” que o PT “quer curral eleitoral no Nordeste”, a Bahia pelo meio. Em tempos não tão pretéritos certamente não só não diria o que disse como receberia tremenda reprimenda do “cacique” que antes lhe impunha 400 mil votos.

Deve agradecer muito o parente haver morrido!

“2012 – o fim está próximo”

Já tínhamos o texto redigido quando a “indignação trombônica” se expressou (post abaixo). E fê-lo muito bem! Insistimos no texto, no entanto, em razão do “rodapé” nele contido.

Não se trata de mensagem de seita apocalíptica, de algum lunático, muito menos profecia de Nostradamus ou de sacerdotes maias. “Se Dilma se eleger olhe o futuro que nos espera. Em janeiro de 2011, com o País dividido, Dilma assume a Presidência do Brasil. Sua primeira ordem é para que a Receita Federal inicie uma perseguição implacável contra os aliados e familiares do candidato derrotado José Serra. Serra viaja com a família para os Estados Unidos, onde encontra, 40 anos depois, novo exílio político. Dilma declara guerra contra São Paulo. Usando sua maioria no Congresso, consegue vetar o envio de recursos federais para o governo de São Paulo”. Outras pérolas, como o comando da resistência por José Serra a partir dos Estados Unidos e Lula unido a FHC recebendo-o de volta do exílio depois do impeachement de Dilma.

Indaga o leitor de onde retirado o terrorismo acima: simplesmente de um vídeo do blog “Vou de Serra 45”, que “está na página oficial do PSDB e usa imagens da propaganda petista no horário eleitoral”, segundo http://www.advivo.com.br/luisnassif/

Se acha que é brincadeira ou piada, assista abaixo. Os mais velhos lembrarão de 1964 e a legitimação civil para o golpe militar.

Preparando a defesa

veronica serraNo entanto, vemos no desespero acima mensagem subliminar: confissão da derrota; defesa dos interesses estadunidenses (porque não se exilaria no Chile?) e a tradicional vocação segregacionista paulista de 1932 amparada no dogma de que São Paulo é a locomotiva do Brasil.

O mais emblemático, típica defesa prévia: aquele “Sua primeira ordem é para que a Receita Federal inicie perseguição implacável contra os aliados e familiares do candidato derrotado” significa o real temor de que as denúncias de Amaury Jr., no livro que anuncia publicar pela Record depois das eleições, sejam efetivamente apuradas. Aí, Verônica (Serra e Dantas), Paulo Preto (e aqueles 4 milhões do metrô paulista), Eduardo Jorge, Preciado etc. sejam investigadas.

Sem falar naquele dinheirinho do DEM de Brasília (de Roriz e penduricalhos) para Sérgio Guerra e Agripino Maia (CARTA CAPITAL, 618, de 20 de outubro), tudo desnudado e comprovado em depoimento de ex-secretária Domingas Trindade, envolvendo a distribuição de recursos da coleta de lixo pela Qualix.

Botar as barbas de molho não seria exagero!

Freio de arrumação

O formato do debate na Globo – típico perguntas e respostas aos contendores num palco em forma de arena – alimentado na premissa de que a dúvida dos 4 a 8% dos indecisos é a dúvida de todo o eleitorado, levou à decepção em torno do aprofundamento de temas, isso em razão do limite para as respostas e a variedade de temas dentro do limite de tempo para o debate.

Por outro lado, não deixa de ser constrangedor que o anunciado “mais esperado” atendesse tão somente a uma ínfima parcela do eleitorado – em média de 4 a 8% – a não ser que buscasse transferir todos eles para José Serra. Afinal, a Globo tem preferência, haja vista a edição que a deixou no plano do ridículo quando da bolinha de papel no Rio de Janeiro.

Para nós particularmente – se não houver uma hecatombe e se as urnas eletrônicas forem a fortaleza de segurança que a Justiça Eleitoral fanática e insistentemente propaga – o formato do debate é a proclamação do vencedor.

Toalha jogada no ringue! Ops... na arena!

traças

traçosAdylson Machado é escritor, professor e advogado, autor de "Amendoeiras de outono" e " O ABC do Cabôco", editados pela Via Litterarum

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