Intolerância, não; indignação, sim; ou o stalinista que habita em nós

Domingos Matos, 25/09/2011 | 18:25
Editado em 25/09/2011 | 18:28

Walmir Rosário

Walmir“O direito de intolerância é absurdo e bárbaro: é o direito dos tigres, e é bem horrível; porque os tigres matam para comer e nós andamos a exterminar-nos por causa de parágrafos”. (Voltaire, - François-Marie Arouet - Tratado sobre a tolerância)

Até o século XVIII a intolerância de cunho religioso campeava absoluta. A igreja católica, ou mesmo as instituições religiosas, se intrometiam nos assuntos econômicos e políticos do Estado, o que era um hábito nocivo ao desenvolvimento e ao progresso da sociedade. O pensamento dogmático religioso era uma barreira colocada entre Deus e o homem, sem razões sólidas para se sustentar.

Os dogmas eram verdade absoluta e sequer podiam ser questionados, e as perseguições por acusações de impiedade e de ateísmo corriqueiras. A Igreja determinava, os reis atendiam. Era essa a moeda de troca entre os dominantes. Um impunha, o outro executava. Sem piedade, diga-se de passagem. Antes, a intolerância também tinha tomado a forma de luta ideológica, com Maquiavel advogando que os fins justificam os meios, para legitimar as ações do Estado contra seus opositores.

Na Europa, notadamente na França, um grupo de pensadores conhecido como os Iluministas, começou a se mobilizar em torno da defesa de ideias que pautavam a renovação de práticas e instituições vigentes. Os principais alvos mirados pelos iluministas eram a injustiça, a dominação religiosa, o Estado absolutista e os privilégios enquanto vícios de uma sociedade que cada vez mais afastava os homens do seu “direito natural” à felicidade.

A intolerância vinculava a religião e a política e o herege religioso era visto como um provocador da ordem estabelecida – a monarquia – indo de encontro ao dogma religioso adotado pelo Estado-nação.

Enfim, graças aos iluministas, a política terminaria por impor a sua autonomia em relação ao poder religioso. Historicamente, a intolerância está presente na esfera das relações humanas fundadas em sentimentos e crenças religiosas. É uma prática que se “autojustifica” em nome de Deus, adquirindo o status de uma “guerra santa” entre os homens.

Ainda hoje, não toleramos o pobre, as minorias. Não bastasse esse sentimento cultural que acompanha a humanidade por séculos, convivemos com os governos de totalitarismos, sejam de esquerda ou de direita. Além dessas ameaças nos nossos países, somos assolados pelo fanatismo, geralmente religioso vindo do oriente (onde impera o islamismo, religião que prega o bem).

Mas, apesar dessas mudanças, ainda somos obrigados a conviver com tamanha selvageria em pleno Século XXI, apesar dos constantes avanços nas áreas da saúde, das comunicações e da informática. O mais grave é que esses avanços são utilizados como instrumento de dominação, a exemplo do que acontece na República Popular da China. Soubemos criar e desenvolver a tecnologia, menos controlar nossos instintos perversos.

A injustiça campeia a passos largos. E tudo isso acontece com a nossa aquiescência. Assistimos a tudo passivamente, com medo de nos envolvermos, apesar de sabermos e termos consciência do mal que pessoas praticam contra as outras. Trata-se de violência praticada contra seres humanos, nossos semelhantes, e continuamos como que anestesiadas diante das injustiças que os atingem. Não nos indignamos, não protestamos e não reagimos.

No nosso planeta, a cada dia que passa aumenta a concentração de riquezas, enquanto milhões ou talvez bilhões de pessoas sobrevivem na fome e na indigência, condenados à morte por inanição. A educação e a saúde, garantidas na nossa Constituição – para ilustrar o nosso caso –, são apenas meros artigos de ficção.

Os seres humanos continuam sendo explorados como acontecia em períodos mais remotos, sem direitos a um trabalho digno e bem remunerado; impedidos de ir e vir por falta de infraestrutura, de meios de transporte, de recursos para pagar o transporte, e o que é o maior requinte da injustiça, de leis restritivas à imigração: é o globalitarismo denunciado pelo mestre baiano Milton Santos.

Com todos esses males assolando a humanidade não somos capazes de empreendermos uma ação sequer contra as injustiças sociais e as desigualdades. Pelo contrário, somos surpreendidos pelo grande número de adesismo aos governos estabelecidos. Até mesmo a cooptação, prática utilizada para conquistar pessoas pelos mais diversos métodos, hoje vem sendo abolida em nome do adesismo desenfreado, fazendo com que desapareça o contraditório, a diversidade de ideias.

A inversão de valores é grande, onde o certo é ser esperto e ser honesto é coisa de otário. A impunidade deixa a sociedade mais indignada ainda, com mandantes de assassinatos impunes, corruptos impunes. No primeiro quartel do século passado, o baiano Ruy Barbosa elaborou o discurso “Oração aos Moços”, para ser lido perante a turma de 1920 da Faculdade de Direito de São Paulo, em que retrata perfeitamente a situação atual.

Com base nessas lições deixadas pelos grandes pensadores da humanidade é que deveremos abominar de nossas vidas a intolerância e adotar como modelo de vida a prática da indignação. E para concluir, lembro mais uma célebre frase de Voltaire: "Eu posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o direito de dizê-las".  

Walmir Rosário é advogado, jornalista e editor do site www.ciadanoticia.com.br

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