BAHIAGAS - 25 ANOS

Imoral: pacientes ficam até 14 horas em fila de posto de saúde

Domingos Matos, 04/06/2010 | 08:55
Editado em 04/06/2010 | 10:15

Longa espera não garante sucesso;

'Fichas' para especialistas estão minguadas

Sistema inteligente não surtiu efeito

postoTodo início de mês é assim. Filas que varam a noite, frio e risco de assalto é o mínimo que moradores de bairros como Califórnia, Fátima e Vila das Dores enfrentam para conseguir uma autorização para atendimento médico na rede pública de saúde de Itabuna. Pior que isso, só mesmo a condição de indignidade humana a que essas pessoas são submetidas para ter acesso a um atendente da Unidade Básica de Saúde Teixeira Barreto - ou, Posto de Saúde do Califórnia. 

Hoje, primeira sexta-feira do mês, é dia de agonia na UBS do Califórnia. É quando são distribuídas as tais autorizações para atendimento em diversas especialidades. Pelo menos, quando deveriam ser distribuídas. Uma senhora, que pediu para ser identificada apenas como Vera, relatou que foi para a fila às 17 horas da quinta-feira, feriado de Corpus Christi. É desumano.

Alguém poderia dizer que é exagero dessa mulher. Mas, se for observado que as pessoas trabalham, e que essa entrega de fichas é feita cedinho, às 7 horas, e ainda que a quantidade distribuída é mínima, não prece assim, tão absurda a atitude dela. Seu esforço foi 'recompensado'. Vera foi uma das poucas que conseguiu uma autorização para médico ginecologista.

Apesar de essa 'ficha' ter sido liberada para aquela UBS, o foi em quantidade mínima. Mas outras tantas, como neurologista, urologista e mais, não foram vistas por lá. As que vieram, não chegaram a atender metade da demanda.

Não é demais lembrar que aquela unidade está recebendo, sistemática e oficialmente, pacientes de bairros como Fátima e Vila das Dores, que possuem unidades de Saúde da Família, mas estão sem médicos para o atendimento e não parecem receber as tais fichas de autorização de exames e consultas especializadas.

"O posto do bairro de Fátima é apenas um cabide de empregos. Quando muito, os funcionários de lá aplicam vacinas e aferem a pressão arterial. O resto do tempo, é em festinhas de confraternização e bate-papo. Médico, Deus nos livre!", reclama uma moradora do bairro, que foi emopurrada para o Califórnia e saiu de mãos abanando. Queria ginecologista, urologista e dermatologista. Conseguiu, com rima e tudo, apenas entrar na 'lista' para futuros contatos, por telefone, caso apareça alguma dessas fichas, como que por algum milagre.

Por falar em banco de espera, esse serviço também não funciona. Serve, apenas, como mais uma enganação. Há relatos de pacientes que esperam há mais de um ano por um desses telefonemas que nunca chegarão. Esse era o tal sistema inteligente de marcação, que foi referendado pelo Ministério Público - o promotor Clodoaldo Anunciação tem uma senha para acompanhamento da evolução das autorizações. Belo golpe de marketing.

Ou o promotor esqueceu a combinação ou esquece-se de dar uma olhadinha de vez em quando nessa calamidade que é o atendimento público de saúde. E olhe que para agir, nesse caso, diferente da tentativa de afastar a presidência do Conselho Municipal de Saúde, órgão que vem tendo atuação destacada na fiscalização da prestação dos serviços aos usuários, inclusive encaminhando algumas irregularidades ao Ministério Público, nem precisa esperar o fim da greve do Judiciário.

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Em tempo: A uma paciente que servia de fonte para essa nota, uma atendente da UBS pediu que não publicasse a lista das especialidades que não serão atendidas esse mês. "Só quem tem acesso a essa lista são os funcionários. Se for publicada, pensarão que estamos passando essas informações para a imprensa". A tal lista foi copiada 'de ouvido', mas a uma tentativa de anotação do papel que estava sobre a mesa, foi feito esse pedido inusitado pela atendente.

Foi atendida. Mas a reportagem lembra apenas que não há o que esconder, senhora. O desrespeito é maior que isso, e não é cometido por simples atendentes que se limitam a dar as más notícias e ainda são obrigados a ouvir os xingamentos dos usuários, que infelizmente não chegam aos ouvidos do prefeito e do secretário da Saúde.

Foto: Arquivo/Pimenta

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