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Professoras de Itabuna transformam a pedagogia do oprimido em pedagogia libertadora

Domingos Matos, 13/05/2019 | 13:50
Editado em 13/05/2019 | 14:52

Em tempos de constante ataque às instituições de ensino, um grupo de Professores da Rede Municipal de Itabuna comprova, por meio de práticas exitosas, que a educação é realmente transformadora. As pedagogas Miralva Cardoso e Rosilene Adelina estiveram no Sindicato do Magistério – SIMPI para um bate-papo, onde puderam contar um pouco de suas trajetórias como educadoras no Conjunto Penal de Itabuna, que leva acesso à educação aos detentos numa proposta construtivista de transformação social.

O Conjunto Penal de Itabuna implantou desde o ano de 2010 o Sistema Educacional Prisional, que possibilita acesso à educação dos presos que estão cumprindo regime fechado e semiaberto. Conforme disposição da Lei de Execução Penal nº 7.210/84, o preso poderá remir a sua pena por meio do trabalho e/ou do estudo. Dessa forma, a pena privativa de liberdade do autor de algum crime poderá ser reduzida, desde que cumpra alguns requisitos, como, por exemplo, participar de atividades educacionais regulares.

Como agente transformadora de realidades, a Profa. Miralva Cardoso, formada em história e pedagogia, integrante da rede municipal desde 2005, começou seu trabalho de professora no conjunto penal em 2014, e de imediato se surpreendeu com a estrutura que o lugar dispunha para o processo de ressocialização. “Quando cheguei lá pela primeira vez, fiquei surpresa, pois eles possuíam uma estrutura melhor que muitas escolas convencionais dos centros urbanos”. De acordo com a professora, o trabalho no presídio veio para complementar seu objetivo inicial na carreira, que seria passar por todas as modalidades de ensino. “Trabalhei com alunos do campo, depois com educação de jovens e adultos, atuei na educação infantil no sistema de Ciclo de Formação e hoje, continuo meu trabalho lecionando para os internos do conjunto penal”, afirma Miralva.

Quando questionada se houve algum receio por trabalhar em um sistema tão estigmatizado pela sociedade, Miralva foi enfática ao dizer que nunca teve medo ou se sentiu desamparada. “Percebi que no fundo são pessoas carentes de afetividade. Nem todos tiveram acesso à educação, alguns estão aprendendo a ler e a escrever agora e percebo que muitos acabam desenvolvendo um respeito e carinho fraternal. Eles conseguem relatar coisas para mim que não contaram nem mesmo para seus advogados. A gente se torna uma espécie de conselheira, tentando mostrar que cometeram um erro, mas que a vida deles é maior que aquilo”, declara emocionada a professora.

A Pedagoga Rosilene Adelina (Rose), por sua vez ingressou como professora no Conjunto Penal em 2016, mesmo já integrando a rede municipal desde o ano de 2002. “Iniciei meu trabalho no Ciclo de Formação Humana com a Pré-escola, infelizmente a escola de Mutuns conhecida como o Sítio IV desabou e nunca foi reformada. Depois disso, me tornei Orientadora de estudo no Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa e ali me dei conta de que meu trabalho sempre deveria envolver a troca de experiência com pessoas. Tenho em minha mente a certeza de que se eu não fosse professora, teria sido babá ou ocuparia qualquer outra função que auxiliasse no desenvolvimento das pessoas, que é o que me move”, afirma Rose.

Ao ser questionada sobre os motivos que a faz tão feliz em seu atual trabalho, Rose é enfática ao dizer que acredita na educação como vetor de transformação. Ela que auxiliou no retorno da educação feminina no presídio discute assuntos relevantes, como empoderamento e conhecimento constitucional. “Eu deixo claro para meus alunos que eles estão naquele lugar porque cometeram um erro, mas informo que existem leis que os amparam e que o conhecimento é a única ferramenta eficaz de libertação”.

No atual sistema prisional, o aluno que assisti a 3 dias de aula tem direito a 1 dia de remição (diminuição) da pena. Há também a possibilidade de remição pela leitura, onde os alunos precisam ler um livro e escrever uma resenha para conquistar a diminuição da pena. Além disso, as professoras desenvolvem projetos para datas especiais e situações cotidianas. “Tenho desenvolvido um projeto intitulado ‘O comercio de Itabuna, por meio da educação, adentra o conjunto penal’, onde levo informações triviais do dia-a-dia para eles. É uma forma de aproximar eles da realidade cá fora e fazer com que não se sintam excluídos do mundo exterior”, afirma Rose.

Infelizmente, apesar de todos os esforços, nem sempre estes profissionais que trabalham com a ressocialização dos presos são valorizados pelo poder público. Governo Municipal suspendeu o direito ao recebimento de adicional de periculosidade e estão tendo que lutar judicialmente para o retorno do benefício. Mesmo com a falta de valorização, se mantém firme no propósito da ressocialização pela educação. “Acreditamos que nosso trabalho não é meramente educacional, mas também social, pois à medida que os internos conseguem compreender que precisam mudar sua postura, nós conseguimos transformar à sociedade”, finaliza Rose.

Fonte: www.simpitabuna.com.br

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