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Ministério da Saúde suspende parcerias para produção de medicamentos

Domingos Matos, 17/07/2019 | 12:31

O Ministério da Saúde informou ontem (16) que 19 parcerias de Desenvolvimento Produtivo (PDPs) estão em fase de suspensão. As parcerias foram firmadas para a produção de medicamentos como insulina, usada para diabetes, e pramipexol, usado no tratamento de doença de Parkinson. A etapa atual permite que os laboratórios públicos apresentem medidas para reestruturar o cronograma de ações e atividades.

Segundo a pasta, as parcerias estão em fase de suspensão, entre outros motivos, por falta de avanços esperados; por falta de investimento na estrutura; por desacordo com o cronograma; por solicitação de saída do parceiro privado; pelo não enquadramento de um projeto como PDP; por decisão judicial; e, por recomendação do Tribunal de Contas da União (TCU) e Controladoria-Geral da União (CGU).

Esse tipo de parceria tem quatro fases. A primeira é a proposta para avaliação; a segunda é o desenvolvimento do projeto, com elaboração dos contratos entre parceiros, treinamento, desenvolvimento da estrutura e qualificação dos processos de trabalho; a terceira é a transferência efetiva de tecnologia e início da aquisição do Ministério da Saúde; e, a quarta, a verificação da internalização da tecnologia.

De acordo com a lista divulgada pelo ministério, cinco parcerias estavam na terceira fase. As demais estavam na segunda fase ou anterior.

O Ministério da Saúde garante, em nota, que a população não será afetada. "Para garantir o abastecimento da rede, o Ministério da Saúde vem realizando compras desses produtos por outros meios previstos na legislação. A medida, portanto, não afeta o atendimento à população. A maior parcela das PDPs em fase de suspensão sequer chegou a fase de fornecimento do produto", diz a nota.

A PDP é uma parceria que prevê transferência de tecnologia de um laboratório privado para um público, com o objetivo de fabricar um determinado produto em território nacional. O Ministério da Saúde coordena o processo e utiliza seu poder de compra para apoiar a produção nacional de produtos considerados estratégicos para o Sistema Único de Saúde (SUS). Atualmente, segundo o Ministério da Saúde, 87 parcerias estão vigentes.

Segundo o presidente da Associação dos Laboratórios Farmacêuticos Oficiais do Brasil, Ronaldo Ferreira Dias, os laboratórios irão recorrer da medida tanto administrativamente quanto judicialmente. "A decisão foi tomada de forma unilateral, mesmo havendo diversos canais para estabelecer diálogo ou se fazer possíveis ponderações. Não houve diálogos prévios", disse, acrescentando que "é quebra de contrato, quebra da confiança que o Brasil tem, inclusive no exterior".

De acordo com Dias, as empresas já realizaram investimentos, inclusive em infraestrutura para produzir esses medicamentos. Parte desses recursos, segundo ele, vêm de fontes públicas. "Tranquilamente chega na casa dos bilhões", disse. (Com informações da Agência Brasil)

Veja a lista divulgada pelo Ministério da Saúde:

Adalimumabe 

Etanercepte 

Everolimo 

Gosserrelina 

Infliximabe 

Insulina (NPH e Regular) 

Leuprorrelina 

Rituximabe 

Sofosbuvir 

Trastuzumabe 

Cabergolina 

Pramipexol 

Sevelâmer

Vacina Tetraviral 

Alfataliglicerase 

Bevacizumabe

Produção de grãos na Bahia pode chegar a 8 milhões de toneladas

Domingos Matos, 15/05/2019 | 14:27

Mesmo com o aumento na área plantada, a produção de grãos na Bahia caiu 16,3% e deverá produzir 8 milhões de toneladas na safra 2018/2019. É o que indica o 8º levantamento, realizado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Segundo o estudo, a queda ocorreu devido às condições climáticas adversas enfrentadas pelos produtores locais. Na safra passada, o cultivo no estado alcançou 9,7 milhões de t. Com relação à área plantada, os números indicam que esta deve alcançar 3,1 milhões de hectares, o que representa aumento de 1,9% em relação ao mesmo período, no ano anterior.

Os dados foram atualizados pela Conab neste mês e destacaram ainda a produção de mamona no estado, que chegou a 28 mil t, 64,4% a mais que na safra passada. A cultura também teve sua área expandida em 60%, alcançando 16,2 mil ha. Já a produção de algodão em caroço deverá passar de 1,4 milhão de t, cerca de 223 mil t a mais que em 2018. Já as lavouras de milho 1ª safra, soja e sorgo estão apresentando expectativa de redução da produção. Juntas, elas totalizam uma queda de 1,3 milhão de toneladas de grãos nesta safra.

Em nível nacional, o levantamento mostrou também que a produção de grãos no Brasil pode chegar a 236,7 milhões de toneladas, apenas 900 mil toneladas abaixo do recorde de safra registrado em 2016/2017. A área plantada está estimada em 62,82 milhões hectares, com acréscimo de 1,1 milhão de hectares se comparado com o período anterior.

Plano do setor cacaueiro visa aumentar produção e diminuir dependência do mercado externo

Medidas que vão permitir a revitalização estão previstas em relatório do GT da nova Ceplac

Domingos Matos, 07/10/2017 | 12:33
Editado em 07/10/2017 | 12:36

Com maior apoio aos cacauicultores, reestruturação institucional do Departamento da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac) e investimentos por meio de crédito rural, entre outras medidas de incentivo, o governo trabalha para revitalizar a economia cacaueira, no prazo de cinco anos. A expectativa é de que a produção de amêndoas no Brasil seja ampliada em até 50%, atingindo 300 mil toneladas anuais.

A meta faz parte do Plano de Crescimento Sustentável da cadeia produtiva do cacau proposta pelo Grupo de Trabalho (GT) da Ceplac, que discute a nova configuração do departamento no âmbito da Secretaria Executiva do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Portaria que trata do assunto foi editada pelo ministro da Agricultura em exercício, Eumar Roberto Novacki, no Diário Oficial da União (DOU) no último dia 2.

“A sinalização de que o grupo está no caminho certo em prol da Ceplac e do cacauicultor foi a aprovação das medidas e a publicação da portaria”, disse Jair Marques, coordenador do GT-Ceplac. “Outro indicativo de que o grupo tem muito a contribuir, é a determinação de contratar, por meio de edital, consultoria especializada para formatar novo modelo organizacional da Ceplac com colaboração do IICA”, afirmou o coordenador.

Mantido pela Ceplac nos estados da Bahia, Pará e Rondônia, o maior Banco Ativo de Germoplasma (BAC) de cacau do mundo também foi contemplado pelo relatório com indicação de estudo da situação atual de seu acervo. O banco possui mais de 4.500 acessos com 70 mil plantas, configurando o mais importante do setor.

De acordo com o diretor da Ceplac, Juvenal Maynart, o apoio à cacauicultura deverá manter a qualidade dessa produção, principalmente nos biomas amazônico e da Mata Atlântica. “As medidas de apoio à cadeia produtiva são fundamentais, pois ajudarão no melhoramento e aumento da produção do cacau”, enfatizou.

A cultura do cacau gera mais de 70 mil empregos diretos e em torno de 5 mil indiretos. O PIB da cadeia produtiva do cacau e do chocolate gira em torno de R$ 15 bilhões de reais.

Em 2017, o país deverá importar 60 mil toneladas de amêndoas e o grande desafio do setor é deixar de ser importador de amêndoas africanas para melhor atender a indústria nacional.

(Fonte: MAPA)

Na França, Rui diz que Bahia quer ser referência na produção de chocolate finos

Domingos Matos, 27/10/2016 | 09:42
Editado em 27/10/2016 | 09:42

O governador Rui Costa chegou nesta quarta-feira (26), em Paris. Seu primeiro compromisso foi um almoço com empresários da cadeia do cacau e do chocolate do Brasil que estão na capital francesa para participar do 22º Salon du Chocolat, maior evento do mundial do setor. Durante a reunião foram discutidas ações relacionadas ao desenvolvimento da cadeia. Em seguida, o governador Rui Costa participou de um encontro com representantes dos trades turísticos baiano e francês, na Embaixada do Brasil na França.

No encontro com os empresários da cadeia do cacau e do chocolate, Rui reforçou que é preciso agregar mais valor ao produto feito tanto por grandes cacauicultores como por agricultores familiares.

Presente ao evento, o coordenador do Stand da Bahia no Salon du Chocolat, o produtor de cacau e chocolate Marco Lessa, classificou o encontro como muito produtivo. “Foram discutidos pontos que consideramos estratégicos e fundamentais para atingirmos metas importantes até 2020. Entre esses pontos estão o investimento em tecnologia e a divulgação do nosso produto que vão contribuir para o desenvolvimento do cacau e chocolate de origem da Bahia conquistar o mundo”, afirmou Lessa.

Turismo e chocolate

Na Embaixada brasileira, que vem dando suporte às ações do Governo da Bahia na França, o enfoque foi a divulgação do Destino Bahia, com destaque para a Costa do Cacau. Durante o evento, o governador concedeu uma entrevista à Rádio França Internacional (RFI). Os temas abordados foram os setores cacau e turismo, principais destaques da viagem de Rui.

Ele ressaltou que na Bahia, turismo e chocolate formam um casamento perfeito. “Falar de cacau na Bahia é falar da história, do processo de desenvolvimento e urbanização da região sul do nosso estado. Estamos aqui para apoiar esse produto tão importante para a economia baiana que já sustentou o estado e hoje se recupera. Nossa meta é verticalizar a cadeia produtiva do cacau, com produção de chocolate fino”, disse à emissora francesa.

Antes do encontro de Rui com o trade, o Governo do Estado promoveu, na Embaixada, uma capacitação para cerca de 40 operadoras francesas sobre as atrações do turismo na Bahia, em especial da Costa do Cacau. O objetivo é atrair um público cada vez maior de franceses que já formam um dos principais grupos turistas a visitar todos os anos o estado.

Na rota do cacau

O secretário estadual de Turismo, José Alves, que faz parte da comitiva do governador, disse que um evento voltado à cadeia do chocolate é uma grande oportunidade para divulgar o estado e atrair visitantes franceses.

“O Salon du Chocolat é uma porta de entrada para nós divulgarmos a Costa do Cacau. Temos famílias que produzem amêndoas selecionadas, de alta qualidade. A cada colheita o produto vem ganhando mais qualidade. Isso é importante porque vai gerar um chocolate melhor ainda”, disse o secretário.

Ele destacou que, além do chocolate, a Costa do Cacau dispõe de belas praias e da cultura divulgada na França pelo escritor Jorge Amado. “Na rota do cacau que passa por diversos municípios o turista pode visitar antigas fazendas, degustar e comprar o chocolate. Estamos divulgando esse roteiro e todo o estado, que é pródigo em belezas naturais”.

 

Entrevista com Geraldo Simões - reprodução do 'Agora' fim de semana

Domingos Matos, 21/06/2011 | 11:07
Editado em 21/06/2011 | 11:45

“Se Vane quiser sair do PT, não criaremos caso”

GSA informação que circula nos meios políticos de Itabuna é que o município não tem as obras que de que necessita porque forças contrárias, notadamente o deputado Geraldo Simões, trabalhariam para boicotar a cidade, barrando investimentos. Essa semana, o deputado explicou, em entrevista ao Agora, a situação do município em relação aos investimentos do governo federal. Simões falou ainda sobre temas como eleições municipais, gestão Azevedo, relação com governo estadual, crise do cacau entre outros, além do caso Vane. “Vane tem todo o direito de querer ser candidato pelo PT. O partido já tem a pré-candidatura de Juçara, então ele teria que disputar a prévia. Mas, se ele entender que deve sair, não criaremos caso, não vamos requerer seu mandato. Ficar ou não, com mandato ou sem mandato, é uma questão de foro íntimo”.

Como o senhor analisa a atual gestão municipal e o que tem feito em Brasília por Itabuna?

O prefeito Azevedo não está tendo competência para gerir a cidade. O problema de Itabuna se resume à falta de gestão. Fiquei decepcionado quando o governador esteve em Itabuna, e o prefeito apresentou como demanda a limpeza dos canais. Ora, limpar canal é algo tão básico que não se pede ao governo do estado. É preciso, para governar um município como Itabuna, pelo menos saber pedir. Em Brasília tenho lutado pela infraestrutura da região, a duplicação da Ilhéus-Itabuna, a melhoria das estradas federais, além de assuntos da Bahia como um todo e do Brasil. Mas, para Itabuna e região, meu mandato está mais focado na melhoria da infraestrutura regional.

O que se fala é que, em relação a Itabuna, o senhor trabalha para boicotar os repasses federais. Como o deputado explica isso?

O fato é que aumentaram muito, mas muito mesmo, os repasses para Itabuna. Como nós temos um governo com dificuldade de gestão, que não conhece as reais necessidades da cidade, termina que vem menos para Itabuna do que o município teria direito de receber. Por exemplo: nesse período do governo Azevedo, em obras importantes para a infra-estrutura, como barragem, canal, posto médico e outros, Itabuna recebeu R$ 81.859.811,77. Nunca Itabuna recebeu tanto dinheiro da União como nessa gestão de Azevedo. Isso sem falar no programa Minha Casa, Minha Vida, que investe mais R$ 136.681 milhões. Estamos falando aqui R$ 240 milhões, que impacta diretamente na economia, com a contratação de mão de obra, compra no comércio, utilização de serviços.

E o que faltaria então, já que a cidade bate recorde de arrecadação de verbas junto ao governo federal?

Veja que a cidade recebeu muito mais dinheiro do que qualquer prefeito. Mas é claro que a cidade precisa de muito mais verbas. Mas, cadê os projetos? Cadê a iniciativa política? Tem que saber o que é importante para a cidade e pedir certo ao governo do estado, à presidenta Dilma e aos ministros do governo. O que falta é o município se organizar para buscar esse dinheiro.

Há duas semanas o município anunciou a ampliação de casas populares, que seriam construídas na área do aeroporto Tertuliano Guedes de Pinho. Qual sua opinião sobre esse anúncio?

Itabuna tem uma área de quase 500 quilômetros quadrados. Por que escolher justamente uma área em cima do aeroporto da cidade? Esse aeroporto é muito importante, só precisa ser recuperado. Ele é importante para voos regionais, que é um filão em franco crescimento na aviação nacional. Você já pensou na utilidade de um aeroporto desses para a saúde, com a possibilidade de remoção de pacientes por uma UTI aérea? Não podemos receber sequer autoridades que queiram vir para aqui e são obrigados a descer em outras cidades.

Recentemente a Comissão de Agricultura da Assembleia se reuniu em Itabuna e ouviu de produtores o pedido de anistia das dívidas do cacau. A gente sabe que o senhor é contra essa anistia...

Entendo que o cacau é o melhor cultivo que alguém pode querer. É uma planta que passa 100 anos colhendo. O consumo de chocolate está crescendo, o preço está melhor, tem o apelo ambiental e tem um plano bom para quitação das dívidas, com desconto de 50% para os grandes e 80% para os pequenos produtores. Agora, governo nenhum vai falar em anistia de dívidas, mas o que está sendo feito, sem que se dê esse nome, é a anistia, de metade para os grandes e 80% para os pequenos, com um prazo de 20 anos para pagar. Eu recomendaria que os produtores procurassem o Banco do Brasil, o Banco do Nordeste e a Desenbahia e renegociassem suas dívidas e pegassem dinheiro novo para custeio e para aumentar a produtividade. Saímos de 100 para 140 mil toneladas/ano, mas sei que podemos chegar, facilmente, somente a região Sul, a 200 mil toneladas, e assim deixar de comprar cacau da África para atender a demanda das indústrias.

As eleições municipais se aproximam e o que se vê até agora é uma grande indefinição. O PT ainda não sabe qual será o candidato, o prefeito ainda vive dilema quanto ao partido pelo qual vai disputar a reeleição. Como o senhor avalia essa situação?

Eu acho que já existe essa definição, sim. Juçara será a candidata pela oposição, pelo PT e em conjunto com diversos partidos com os quais pretendemos formar uma grande aliança. Para isso vamos buscar os partidos da base de nosso governo federal, o que inclui o PMDB. E tem o prefeito, que é filiado ao DEM. Ele está na contramão da Bahia e do Brasil, mas é filiado a esse partido. Então, essee é o quadro, que já está definido, em minha opinião.

Mas o PT terá que conviver com o “problema Vane”, que quer ser candidato e que pode, até, mudar de partido para isso...

Todo mundo tem direito de querer. Lembro que em 2002, Lula era candidato, fortíssimo nas pesquisas, e Suplicy também queria. O partido fez uma prévia, Lula venceu e partiu para a eleição para presidente. Aqui em Itabuna, em 2008, Juçara era candidata e um militante histórico nosso, muito importante para nosso partido, que é o Iruman Contreiras, tinha o desejo de ser candidato, apresentou o nome dele e os filiados foram lá e decidiram que a candidata seria Juçara. Se o Vane tem esse sonho, esse projeto de se candidato a prefeito de Itabuna, ele tem todo o direito de apresentar o nome dele e o partido, através de seus filiados,vai escolher quem será o candidato. Eu vou votar em Juçara.

Se Vane mudar de partido, com vistas a ser candidato, o PT vai requerer o seu mandato de vereador?

A permanência de uma pessoa, com mandato ou não, dentro do partido, é uma decisão de foro íntimo. Não pensamos em tomar seu mandato, caso ele queira sair do partido para ser candidato. Isso é o de menos. Nós apoiamos Vane em várias eleições, e olhe que o PT já ajuda Vane mesmo antes de ele ser do partido; ele trabalhava com Juçara, na secretaria [de Desenvolvimento Social]. Assim como apoiamos a sua fundação, que é muito importante em Itabuna, que é a Fundação Renascer. Então essa é uma questão de foro íntimo e ele tem todo o direito de fazer uma reflexão do que é o melhor para ele, se é continuar no PT, ser candidato e disputar com Juçara a preferência do partido, se continuará sendo candidato a vereador pelo Partido dos Trabalhadores ou, até mesmo, se seu coração assim o disser, procurar outra agremiação. Quero dizer que de nossa parte não haverá dificuldade alguma.

Recentemente foi noticiado que o senhor procurou diversas lideranças políticas, algumas até ligadas ao fernandismo, visando as eleições de 2012. O PT está aberto a tantas adesões assim?

Estamos, sim, conversando com todas as forças políticas de Itabuna. A gente está vendo diversos investimentos indo para Ilhéus, como um porto, um aeroporto, uma ferrovia e uma ZPE, vemos também Vitória da Conquista se transformando, Eunápolis, Teixeira, Santo Antônio de Jesus se desenvolvendo e Itabuna estagnada. Não queremos isso, e estamos conversando, eu Juçara e o PT, com as diversas forças políticas da cidade, sem importar a que partidos pertençam. Estamos procurando todas as personalidades, instituições e partidos que se preocupam com Itabuna. Não podemos é aceitar que nossa cidade continue nesse caminho em que está.

O senhor não tem defendido uma posição em relação aos limites entre Itabuna e Ilhéus. O que o pensa disso?

Os limites de Itabuna e de Ilhéus foram estabelecidos em 1910, há um século, portanto. Ilhéus é uma cidade-irmã, importantíssima para nós e para a região, e não dá para ficarmos desperdiçando energia com essas brigas. Precisamos dar um salto além. Por que, em vez de ficar falando em mudar limites, em anexar o Salobrinho a Itabuna, Inema a Coaraci etc, a gente não pensa em criar uma região metropolitana, com cada município desenvolvendo sua vocação, se especializando nas diversas atividades e todos cuidando dos problemas comuns, a exemplo do tratamento do lixo, a questão do transporte interurbano? Então, prefiro discutir soluções para as duas cidades do que ficar procurando briga com Ilhéus ou com outro município qualquer.

Reprodução de entrevista de Lula ao El País - vale a pena encarar o tamanho do texto

Domingos Matos, 24/05/2010 | 11:50
Editado em 09/05/2010 | 22:33

O Trombone reproduz a íntegra do texto do jornal El País, um dos principais diários do mundo, no qual o presidente brasileiro fala de sua expectativa pelas eleições de outubro, analisa a conjuntura mundial e fala de seu legado à frente do governo do Brasil nesses quase oito anos. Foi mantida a formatação de parágrafos do jornal espanhol. O Texto é de Juan Luis Cebrián - El País.

lulalá"Prefiro o carnaval à guerra". Lula coloca sua mão de operário sobre o meu joelho, num gesto de cumplicidade, de camaradagem, de evidente franqueza, porque essa é a sua força e sua convicção, a de se comportar de acordo com aquilo que é, da forma como os brasileiros verdadeiramente o veem. "Sou um deles, uma pessoa como eles". Lula vem de onde eles vêm, fala como eles falam, "não sou um estranho no ninho", e até chegar ao poder vestia-se como eles se vestem, "embora tenha trabalhado vinte e sete anos usando um macacão, nunca fiquei à vontade; depois de dois meses usando gravata não tive dificuldade para me acostumar a ela, é uma peça bonita".

Lembrei-me da reflexão de Sancho Pança antes de se tornar governante da ilha Barataria [no clássico "Dom Quixote de La Mancha", de Cervantes]: "vistam-me como quiserem, pois qualquer que seja a roupa que ponham em mim, serei sempre o mesmo Sancho Pança!". Porque o hábito não faz o monge, e Lula é Lula não importa o que esteja vestindo. "Disseram que eu teria de ir de fraque ao jantar no palácio com o rei da Espanha, mandei dizer a Juan Carlos que eu não usava isso, e muitos me criticaram aqui no Brasil, 'que falta de elegância, de capacidade para exercer a presidência!', até que o rei ligou e disse 'venha como quiser', fui de terno e gravata, porque não quero ser visto como um estranho pelo povo. O que acontece é que a liturgia do poder está toda preparada para nos distanciar do povo. Quando você é candidato, vai para todo lugar de camisa, cumprimentando as pessoas, mas uma vez que chega à presidência o colocam num carro blindado e você nunca mais vê o rosto dos cidadãos."

Pergunto-me com o que as greves se parecem mais, com as guerras ou os carnavais. Luiz Inácio Lula da Silva forjou sua carreira política nas mobilizações populares, na agitação nas ruas e na luta em defesa dos direitos dos trabalhadores. Quase um milhão e meio de operários brasileiros entrarem em greve, liderados por ele, durante o ano de 1979, e a partir desta data, este combativo dirigente sindical empreendeu uma carreira política cheia de altos e baixos que o levaria, 25 anos mais tarde, à presidência da República.

"É notável que nem eu e nem meu vice, um empresário de sucesso, tenhamos diploma universitário", afirma com um certo orgulho que irrita a oposição por causa da ambiguidade que a mensagem pode representar num país em que a educação é o objetivo fundamental do governo e o empenho necessário para acabar com as desigualdades e a pobreza. Mas o que ele quer dizer é que a democracia funciona no Brasil, que não são os méritos profissionais, acadêmicos, nem de qualquer outro gênero, que são decisivos para chegar ao poder, mas sim a vontade dos eleitores. Um poder que Lula deixará, pelo menos formalmente, no próximo mês de dezembro depois de oito anos de exercício, e do qual sai cercado de tanta popularidade que alguns esperam que ele saia levitando a qualquer momento, como fez o personagem de García Márquez em "Cem Anos de Solidão", só que por consumir café brasileiro, que ele bebe o tempo todo com avidez, em vez de xícaras de chocolate.

"O momento mais extraordinário do poder é o período entre o dia da vitória e a tomada de posse. Logo dá para perceber que as coisas não são tão fáceis, que se está diante de uma série de obstáculos. Eu teria motivos de sobra para dizer que o poder me deu mais alegrias do que tristezas, porque poucas vezes na história do Brasil aconteceram coisas tão importantes como durante meu governo, mas sairei lamentando o que não pude fazer, a reforma do Estado, por exemplo. Não conseguimos dar mais agilidade ao Estado; desde que uma decisão é tomada e até que ela seja executada nos deparamos com quinhentos obstáculos em nome da democracia. Há o Congresso Nacional, com suas duas câmaras, a administração pública, os sindicatos, a Justiça, as questões ambientais, nas quais as ONGs são muito ativas... Ou seja, passam-se dois anos ou três antes que um projeto se cristalize. Faz falta um consenso que nos permita eliminar tantas dificuldades e atrasos. Não podemos renunciar à fiscalização, mas tampouco é aceitável utilizá-la como uma forma de impedir que se façam as coisas de que o Brasil necessita."

Seu pragmatismo, seu jeito bonachão, seu bom senso, tudo nele faz lembrar o governador da ilha Barataria. Quase oito anos depois de ocupar a Presidência da República, suas maneiras pessoais, seu método de trabalho, seu ar decidido e brincalhão são os mesmos do jovem Lula que, fugindo da burocracia sindical, reunia-se durante as tardes no bar da Tia Rosa em São Bernardo do Campo, cidade onde ele ainda mantém a casa de sua família. Lá, com seus companheiros de luta, muito mais um grupo de amigos do que um comitê organizado, preparavam entre um copo e outro as mobilizações em defesa de um salário maior para os operários. Nenhuma ideologia alimentava suas ações, que em seguida receberam apoio, entretanto, dos movimentos de base católicos.

"O PT não teria existido sem a ajuda de milhares de padres e comunidades cristãs do Brasil, ele deve muito ao trabalho da Igreja, à teologia da libertação, aos padres progressistas. Tudo isso contribuiu para minha formação política, a construção do PT e minha chegada ao poder. Minha relação pessoal com a Igreja Católica foi e continua sendo muito forte, mas somos um país laico, tratamos todas as religiões com respeito".

lulaláSeu chefe de gabinete, Gilberto Carvalho, interrompe por um momento. "Este aqui era seminarista, ia ser padre, e abandonou tudo para entrar no PT, para trabalhar comigo". Lula despacha alguns assuntos à sombra de um crucifixo gigantesco que se destaca sobre sua mesa de trabalho, enquanto eu fico imaginando que, para alguns petistas da época, a agitação política era também uma espécie de sacerdócio. A influência religiosa ("esta é a Igreja mais progressista da América Latina, provavelmente do mundo") é evidente também no tratamento das leis de aborto no Brasil, ainda que o presidente busque a equanimidade. O Vaticano "tem uma atitude muito conservadora sobre esse ponto. No Brasil, o aborto é proibido, exceto em caso de violação da mãe. Eu, como cidadão, sou contra o aborto, e não acredito que nenhuma mulher seja favorável porque ele gera um grande sofrimento para quem o pratica. Mas como chefe de Estado, penso que se trata de uma questão de saúde pública. Devemos proteger as meninas que tentam abortar por conta própria colocando agulhas no útero e coisas assim. O Estado tem a obrigação de atender essas pessoas."

Para os progressistas europeus, que adoram Lula, uma declaração desse gênero pode ser decepcionante, tanto quanto à declaração que ele mesmo deu, muitas vezes, afirmando que não se considera de esquerda. "Minha trajetória, meu perfil político, minha vida no sindicato, a criação do PT, caracterizam-me, sem dúvida, como um esquerdista. Mas o próprio PT é uma novidade na esquerda mundial. Nasceu contra todos os dogmas dos partidos marxistas-leninistas, que obedeciam fielmente à Rússia ou à China. No começo era algo parecido com uma torcida de futebol; um grupo de trabalhadores que, junto com o movimento social, a Igreja Católica e alguns intelectuais que haviam acreditado na luta armada e participado dela, decidiram criar um partido político. Não tínhamos na época um programa definido e nunca gostei que me rotulassem, menos ainda ao assumir a presidência. Um chefe de Estado não é uma pessoa, é uma instituição, não tem vontade própria todo o santo dia, mas tem que levar a cabo os acordos que sejam possíveis. Aprendi isso no poder e creio que foi bom para o Brasil. Não posso gostar de um presidente porque ele é de esquerda e não gostar de outro porque é de direita. Eu me dei bem com Aznar e com Zapatero, e tenho que me relacionar com Piñera no Chile da mesma forma que fiz com Bachelet. No exercício do poder, sou um cidadão, como diria...? Multinacional, multi-ideológico, não?"

Com seus olhos brilhantes e inquietos, quer minha aprovação para esse pragmatismo, e de repente se transforma num líder de torcida, a torcida brasileira; levanta-se, senta-se, volta a levantar-se, sorri primeiro, logo estremece, vira, ergue as sobrancelhas, busca a proximidade, o carinho, sou apenas mais um brasileiro, apenas mais um cidadão deste país que é capaz de contagiar a alegria, deste país com trezentos dias de sol por ano, deste país imenso, autossuficiente, pacífico, "do qual estamos tentando eliminar 50 ou 60 anos de atraso, de desconfiança, anos em que ninguém queria investir aqui. E por isso estamos construindo um capitalismo moderno, um Estado de bem-estar social. Quando entrei no governo, o Brasil não tinha crédito, não tinha capital de trabalho, nem financiamento, nem distribuição de renda. Que raio de capitalismo era esse? Um capitalismo sem capital. Resolvi então que era preciso primeiro construir o capitalismo para depois fazer o socialismo; é preciso ter o que distribuir para poder distribuir. Se o país não tem nada, não há nada para distribuir, e os empresários precisam saber que tem de pagar salários um pouco maiores para que as pessoas possam comprar os produtos que fabricam. Isso Henry Ford já dizia em 1912".

Estamos em plena campanha eleitoral e Lula aproveita para fazer propaganda de seu partido, deixa escapar algumas críticas ásperas, provavelmente injustas, a seu antecessor, o social-democrata Fernando Henrique Cardoso, que foi seu companheiro na luta contra a ditadura, e a quem hoje não se mostra nada generoso. Mas o milagre brasileiro começou precisamente com Cardoso, um professor respeitado e um democrata exemplar que nivelou as contas públicas e venceu a inflação. Lula faz um balanço diferente. "Hoje o Banco do Brasil tem mais crédito do que o país inteiro tinha quando cheguei ao poder. Quando eu deixar a Presidência, teremos criado mais de 14 milhões de postos de trabalho em oito anos. Só a China a Índia podem competir com uma realidade assim".

Pergunto então se isso é uma vitória do capitalismo, e ele se apressa a declarar que é um triunfo de seu governo "porque teve a coragem de enfrentar a crise, em vez de se queixar: fazendo investimentos, reduzindo os impostos em setores chave para a economia, empreendendo muitas obras públicas. Se o Brasil mantiver nos próximos cinco anos a seriedade nas políticas fiscal e monetária, nos investimentos e no controle da inflação, tem tudo para se transformar numa potência respeitada no mundo. Se a economia continuar crescendo entre 4,5% e 5,5%, em 2016 poderá ser a quinta economia mundial."

Não sei se descubro rastros da herança portuguesa nessa fantasia um tanto hiperbólica do presidente, que faz com que ele se distancie por alguns momentos de sua sisuda prudência de Sancho Pança para se parecer mais à loucura idealista de seu senhor Dom Quixote, porque enquanto Lula fala, as pesquisas, lá fora, continuam apontando como provável vencedor, ainda que por uma pequena margem, José Serra, candidato do PSDB, o partido de Fernando Henrique.

"Ganhe quem ganhar, ninguém fará nenhuma loucura; o povo quer continuar caminhando, e não voltar atrás. Mas deixe-me dizer que eu não acredito na possibilidade de perdermos as eleições". Muitos pensam que, se o PT ganhar, não será pelos méritos de Dilma, a candidata do partido, uma antiga guerrilheira e uma política eficaz, entretanto sem o carisma que as eleições presidenciais demandam, mas sim pelo formidável apoio que lhe presta o próprio Lula, cuja personalidade o impregna todo de lulismo. "Sim, eu sei que muita gente, para se justificar, diz, eu não gosto do PT, gosto do Lula; gente da direita, claro. Acontece com outros líderes políticos, Felipe González, por exemplo. Normalmente nós, enquanto figuras públicas, somos menos ideologizados do que os partidos e temos a capacidade individual de congregar pessoas que de maneira nenhuma se sentem próximas de nossas formações. Mas não acredito que haja um 'lulismo' como tal, prefiro saber que vamos fortalecer a democracia e que os partidos políticos conseguirão se organizar e fortalecer."

Em todo caso, parece descartada a continuidade na política econômica, que Lula salvaguardou desde o princípio nomeando um antigo militante do partido de FHC como presidente do Banco Central. A consequência dessa política foi a prosperidade que permite situar o país entre as potências emergentes agrupadas em torno do que se passou a chamar de Bric (Brasil, Rússia, Índia e China). Junto a esses países, Lula fez valer sua voz afirmando sua independência como um protagonista singular e inclassificável da política internacional. Será que seu país está a caminho de se transformar numa superpotência? Poderia fazê-lo sem possuir - o único dos Bric nessa posição - uma arma atômica?

lulalá"A Constituição proíbe as atividades nucleares exceto para fins pacíficos. É proibido, quer ver?", e aponta diligentemente com sua mão mutilada para o artigo 21, inciso 23. "O presidente não decide nas questões nucleares, é o Congresso, e não temos interesse em ser uma potência militar se não é do tamanho de nossa soberania. Precisamos de Forças Armadas adequadas para garantir a segurança do povo, para manter uma política de defesa respeitável. Não queremos invadir nenhum país, mas tampouco queremos que nos invadam...".

Eu o interrompo, entre irônico e risonho: invadir o Brasil me parece difícil, presidente, uma tarefa quase titânica. E ele, impassível, responde: "não se pode menosprezar a loucura de alguns seres humanos, é preciso se proteger". Se proteger de quem? Não acredito que seja de Chávez ("um homem muito inteligente, ainda que as vezes cometa equívocos e ele sabe disso") nem de Evo ("um retrato de seu povo, ninguém o representa melhor que ele; no tema do petróleo, eu compreendi que o Brasil tinha que pagar mais à Bolívia, não briguei com Evo, porque ele tinha direito") nem da Colômbia, Argentina ou Uruguai ("o Brasil trabalhou muito com eles para consolidar a democracia em sua plenitude. Temos que gerar uma política de confiança. A doutrina utilizada antes pelas grandes potências era considerar o Brasil como inimigo da América Latina, a grande ameaça; nós estamos destruindo essa visão negativa e demonstrando que podemos ser seu grande aliado").

O lulismo, se é que existe, tem suas raízes no sindicalismo, na luta como pressão e o acordo como resposta. "O chamado mundo desenvolvido tem que compreender que a geopolítica mudou. A democratização da África e o crescimento de países como a China, Índia e alguns da América do Sul sugerem uma nova dimensão. Eu não quero a guerra, sou um homem de diálogo, e na questão nuclear o Brasil tem uma política muito definida. Quero esgotar até o último minuto as possibilidades de um pacto com o presidente do Irã para que ele possa continuar enriquecendo urânio, e que tenhamos a tranquilidade de que ele só vai utilizá-lo para fins pacíficos. Meu limite são as decisões da ONU, a qual, é claro, pretendo mudar porque da forma como está ela representa muito pouco. Por que o Brasil não é membro do Conselho de Segurança? Por que a Índia não é? Por que não há nenhum Estado africano? Se a ONU continuar fraca assim, sem representatividade, com países com direito de veto, nunca servirá corretamente ao governo global que é necessário."

Felipe González disse que os ex-presidentes são como os vasos chineses. Todo mundo em casa sabe que se trata de peças valiosas que vale a pena conservar, ainda que não necessariamente apreciem sua beleza e as pessoas não saibam onde colocá-los: estejam onde estiverem, sempre atrapalham a passagem. A partir do próximo mês de dezembro, Luiz Inácio Lula da Silva, um dos políticos mais carismáticos, admirados e surpreendentes do último meio século, aumentará essa coleção de grandes porcelanas. Os visitantes dos museus de cera venerarão sua imagem, assim como a de Lincoln, a de Mandela, a de tantos grandes homens que foram capazes de surgir do nada. Cheio de vida, transbordante de ideias, não o imagino aposentado em seu apartamento em São Bernardo, compartilhando com seus vizinhos as nostalgias de um tempo passado.

"O melhor serviço que um ex-presidente da República pode prestar é ficar calado, deixar quem quer que ganhe as eleições governar e permanecer em silêncio". O silêncio é de ouro, mas não imagino Lula assim quando há tanto a denunciar, tanto a reivindicar, tanto a propor. Então, talvez se limite a ficar ausente, ou distante. "Vou sair do governo tendo colhido um monte de políticas bem sucedidas e quero compartilhar esse aprendizado, essa autêntica lição de vida, com os países mais pobres da América Latina e da África. Não sei se o farei através de uma fundação, porque em hipótese alguma quero fazer nada que não esteja em consonância com o governo. Só quero transmitir aos demais a experiência que adquiri, porque os pobres não têm acesso aos governantes, os pobres não vão aos coquetéis, claro, e isso porque não há nenhum político que ganhe uma eleição falando mal deles, podem insultar os banqueiros, os grandes empresários, mas os pobres... de forma alguma, em campanha eleitoral um pobre é a coisa mais extraordinária do mundo. E uma vez que o candidato ganha a eleição, termina seu mandato sem se reunir com um pobre nenhuma vez, só sabe que eles existem porque lê os jornais, não há interação, não há vínculo. No próximo Natal, quando meu mandato chegar ao fim, quero convidar de novo os catadores de São Paulo. Há oito anos que me reúno com eles no palácio nessa época (também fiz isso com os sem-teto, com os invasores) e comprovamos que essas pessoas não querem parar de catar papel, mas aspiram a uma existência mais digna, ou seja, querem que organizemos cooperativas, centenas delas em todo o Brasil, financiadas pelo Estado, que deem trabalho a centenas de milhares de pessoas, capazes de levar todos os dias para casa alguma coisa para comer graças ao resultado de seu trabalho."

Quando tudo isso acontecer, o palácio presidencial já terá sido reconstruído. Por enquanto, Lula se aloja em escritórios emprestados do Centro Cultural do Banco do Brasil enquanto os operários se esforçam para recuperar as envelhecidas estruturas do Planalto, cuja reforma não foi concluída para a celebração do cinquentenário de Brasília. Mas no próximo 23 de dezembro o presidente vai se despedir dos catadores paulistas nos aposentos elegantes e sóbrios destinados ao dirigente da nação. Talvez o faça pensando, como Sancho em sua partida, que "saindo nu como saio, não é necessário outro sinal para dar a entender que governei como um anjo". Tenho certeza, pelo menos, que o cronista desse futuro vindouro poderá novamente relatá-lo com as mesmas palavras de Cervantes: "Todos o abraçaram, e ele, chorando, abraçou a todos, e os deixou admirados, tanto por suas razões como por sua determinação tão resoluta e tão discreta". É isso.
Tradução: Eloise De Vylder


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