Por Jorge Almeida

Conheci Washigton numa situação peculiar. Ele havia passado na primeira fase do concurso da Caixa Econômica Federal e não tinha destreza com a datilografia.

Possibilitamos que ele e outros concorrentes conhecessem as “novas máquinas” adquiridas pela CEF, as quais seriam utilizadas na prova final.

Uma vez aprovado retornou para nos agradecer. Dali nasceu a nossa amizade. Isso já dura mais de 35 anos.

Washington era filósofo por formação e por vivência. Nunca o vi aborrecido ou bravio; sempre havia nele uma palavra de conforto, de força e de coragem para continuarmos lutando e caminhando.

Washington sempre esteve do lado certo da história. Por mais dialético que fosse, jamais titubeou, pestanejou ou retrocedeu em seus princípios.

Perdeu muita coisa por agir assim, mas andava sempre com um sorriso no rosto, um abraço fraterno… Sempre a apontar o caminho mais consequente.

Seu amor pelos seus era incondicional. Interessante que “seus” aqui éramos também todos nós. O nosso povo, a nossa gente mais humilde, o nosso país, a humanidade inteira. Dizia sempre que só seria rico quase toda humanidade também fosse.

Com ele nunca havia tempo ruim. Sempre foi um colega e amigo das primeiras e todas as horas. Se tivéssemos que mudar o seu nome poderíamos chamá-lo de LEALDADE.

Fico agora a imaginar que ele sofreu uma sabotagem. Digo isso porque dos seus órgãos o mais poderoso, o mais resistente, o mais combativo era exatamente o seu coração.

E foi exatamente ele quem, sofrendo um infarto fulminante, nos separou do conviveu de uma das pessoas mais maravilhosas que tive o prazer de conhecer e conviver em toda a minha vida.

Se tivesse que dedicar-lhe uma mensagem, usaria “Canção do Vento e de Minha Vida”, de Manoel Bandeira (a mesma que dediquei à minha Maíra):

Canção do vento e da minha vida

Mário Bandeira

 

O vento varria as folhas,

O vento varria os frutos,

O vento varia as flores…

E a minha vida ficava

Cada vez mais cheia

De frutos, de flores, de folhas.

 

O vento varria as luzes,

O vento varria as músicas,

O vento varia os aromas…

E a minha vida ficava

Cada vez mais cheia

De aromas, de estrelas, de cânticos.

 

O vento varria os sonhos

O vento varria as amizades…

O vento varria as mulheres.

E a minha vida ficava

Cada vez mais cheia

De afetos e de mulheres.

 

O vento varria os meses

O vento varria os teus sorrisos…

O vento varria tudo!

E a minha vida ficava

Cada vez mais cheia

De tudo.

(Estrela da vida inteira. 5. Ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974. p. 165-6.)

Segue em paz, meu amigo, você foi num instante difícil para todos nós. Creio que os teus átomos, pensamentos e sentimentos irão irradiar todo carinho e amor que você dedicou a todos nós.

*Esta foi uma homenagem de Jorge, ao bancário Washington Luiz de Almeida, de 58 anos, que faleceu esta madrugada (16), vítima de infarto. Ele, que era natural de Camacan, durante 32 anos foi funcionário da Caixa Econômica Federal. Também foi diretor do Sindicato dos Bancários. O corpo do bancário está sendo velado no Saf e o enterro marcado para amanhã (17) na sua cidade natal.